FERNANDA & FELIPE




“Positivo”, dizia o papel. Fernanda abriu muito segura de que era só coisa de sua cabeça! Talvez a ansiedade não estivesse deixando a natureza fazer a sua parte. Mas não. Era positivo. Fernanda namorava Felipe. Se conheceram no cursinho e estavam muito felizes por terem conseguido passar no vestibular para Administração. Era o primeiro ano de faculdade... Aquele clima bom de festinhas e começo da independência era tudo que eles sempre sonharam. O relacionamento tinha pouco mais de um ano. Estavam apaixonados... Ele era um cabeça de vento, apesar de trata-la como uma princesa. Ela era responsável, mas ao mesmo tempo inconsequente... Totalmente normal para sua idade. Bastou o primeiro dia de atraso para ela se preocupar.
“Minha menstruação não veio”, mandou por mensagem, antes de sair de casa para ir à aula.
“hahaha... bem que desconfiei que sua barriga estava grande demais ontem”, zombou Felipe.
“Idiota. Eu tô falando sério!!!”, respondeu Fernanda.
“Nanda, relaxa. Daqui a pouco ela vem!!!”
“Relaxa? Ela nunca atrasou! Já pensou se eu estiver grávida?”
“Tá louca? Eu surto se eu for pai agora”, mandou por áudio.
“Daqui a pouco a gente conversa. Tô indo pra aula, saindo de casa, seu idiota”.
Ela gostava de chamá-lo de idiota. Fazia piada com tudo... não levava nada a sério. Às vezes até ela perdia a paciência, mas eles sempre acabavam caindo na gargalhada.
“Vem cá!!! Deixa eu falar com meu bebezinho”, zombou Felipe enquanto alisava a barriga de Fernanda, assim que se encontraram na faculdade.
“Cara, eu vou dar na sua cara!”, disse ela, rindo de nervoso.
“Você está muito tensa. Só porque atrasou um dia?”
“Você esqueceu que aquele dia na sua casa a gente não usou camisinha?”, disse ela.
“Claro que não esqueci... mas é muuuuito azar mesmo se tiver acontecido!! Relaxa e vamos pra aula!”.
Aquela aula passou voando. Não porque o professor era bom... aliás, a aula dele sempre se arrastava. Era um saco. Fernanda não conseguia parar de pensar no assunto... se pegava pensando em como contaria para os pais, como faria para sustentar uma criança, o que ela faria com seu futuro caso realmente estivesse grávida. Não conseguiu guardar segredo... Mandou por bilhetinho no papel pra sua melhor amiga Nathália: “Me encontra no banheiro. Urgente!”. E saiu da sala. “Amiga, minha menstruação está atrasada!”. “Quê??? Há possibilidade de você estar grávida?”, disse Nathália. “Pior que sim. Esses dias na casa do Lipe a gente não usou camisinha. Sabe como é. A gente nunca acha que vai acontecer. E você sabe que não posso tomar anticoncepcional”. “Cara, você é louca! Faz logo um teste. Vamos amanhã de manhã no laboratório?”, chamou Nathália. “Tá... vamos... meu Deus. Eu estou ferrada!”.
Voltaram pra sala e ficaram se olhando o restante da aula, enquanto Felipe chupava o dedo imitando um neném para zombar da situação. Fernanda pensou: “Como esse idiota vai ser pai?”. Quando acabou a aula, cada um foi pra sua casa. Fernanda se trancou no quarto, pegou um calmante da mãe escondido e apagou. Quando a mãe chegou em casa no final do dia, seguiu sua rotina normal, mas percebeu que a filha estava estranha. “Aconteceu algo, filha?”. “Não, mãe. Só tive um dia péssimo!”. Voltou pro quarto e se sentiu mal por ter mentido pra mãe. Olhou o celular e viu várias mensagens de Felipe e Nathália... mas estava perturbada e sonolenta demais para responder alguma coisa. Resolveu dormir. No dia seguinte foi ao laboratório com Nathália de manhã bem cedo, antes da faculdade. Estava se sentindo estranha. Enjoada, com os seios doloridos... sabia que não era normal. Colheu o sangue e combinou com Nathália de ir buscar logo após as aulas. Simplesmente não conseguia acreditar no resultado. Nathália tentou amenizar: “Nanda, seus pais são gente boa. Eles vão te ajudar”, mas ela só conseguia chorar. Paralisada, pediu para sua amiga ligar pra Felipe para marcar de se encontrarem na pracinha perto da faculdade... Felipe ficou por lá, num barzinho que a galera se reunia depois da aula pra jogar sinuca. “O que aconteceu? Por que você está assim? Nosssaaa... seus olhos ficam mais azuis quando vc chora”. Felipe nunca perdia a oportunidade de zoar Fernanda. “Será que você pode ser sério alguma vez na vida?” e emendou: “Olha. Eu fiz o exame”, e entregou o papel na mão de Felipe. Ao mesmo tempo em que ele abriu, o celular de Fernanda tocou. Era sua mãe. “Oi, mãe”. “Por que existe um exame de Beta-HCG registrado no seu nome aqui na tela do plano? Eu quero saber AGORA o que está acontecendo”. Sim. Ela estava grávida no auge dos seus 19 anos.

“Mãe, eu vou conversar com você em casa!” e desligou o telefone. Felipe estava perplexo: “Fernandaaaa... você é doida. E agora? O que a gente vai fazer?”.
Nathália entrou na conversa: “Bom, acho que estou sobrando aqui... Nanda, qualquer coisa você me liga”.
“E agora o quê, Felipe?”, perguntou.
“E agora sim! A gente acabou de entrar na faculdade. Você vai ter que dar um jeito nisso!”.
“Jeito? Nisso? O que você está querendo dizer?”. Fernanda não acreditava no que estava ouvindo.
“Ué... você sabe o que eu estou querendo dizer. Eu tenho um dinheiro guardado. A gente procura uma clínica”.
“Você ficou louco?”, disse aos prantos. “Eu jamais pensaria nisso... Abortar? Sai daqui. Não quero mais falar com você”.
Fernanda foi até o seu carro e mal conseguiu dirigir até em casa. Felipe ligava insistentemente pro seu celular... mas ela ignorou. Ficava martelando em sua cabeça como ele seria capaz de ter cogitado essa possibilidade. Assim que chegou em casa, sua mãe já estava esperando sentada no sofá.
“Fernanda, pelo amor de Deus. Por que você está assim?”, disse ela.
“Mãe, eu estou grávida!”, disse Fernanda, aos prantos.
O silêncio ficou no ar.
“Grávida? Como você deixou isso acontecer, filha?”
“Mãe, eu sinto muito. Como eu vou contar isso pro meu pai?”
“Fernanda... a gente conversou tanto sobre isso!!! O problema não é a gravidez... o pior é você estar com alguma doença. Claro que vai mudar tudo em sua vida, mas já pensou se você estiver com uma doença grave? A AIDS está aí... crescendo a cada dia"
"Ai mãe. O Felipe é meu primeiro namorado. Olha pra ele. AIDS?", disse ela.
"AIDS sim. Você acha que AIDS tem rosto?", falou brava.
Fernanda ficou em silêncio.
"Calma, a gente vai resolver isso, juntas. Você contou pro Felipe?", perguntou.
“Mãe, eu contei. E sabe o que ele me falou? Pra eu abortar... que eu tinha que resolver isso”.
“Moleque. Filha, vai descansar... Vamos esperar seu pai chegar e falamos com ele”.
“Eu te amo”, disse Fernanda antes de se trancar no quarto e cair em prantos. Chorou tanto que acabou adormecendo (quem nunca?). Quando acordou e saiu do quarto, deu de cara com seu pai. “Oi, pai”. “Filha, que cara é essa? Pra acordar desse jeito é melhor voltar a dormir” e riu. Achou estranho Fernanda não achar graça... “O que está acontecendo?”, perguntou ele.
“Vamos ali na sala pra gente conversar”, disse ela.
“Pai, me perdoa. Eu estraguei tudo”
“Te perdoar? O que você fez?”
“Pai, eu estou grávida”.

“Grávida?”, exclamou ele.
“É...” aos prantos.
“Cadê o moleque do seu namorado que não está aqui te dando apoio? Me dá o telefone que eu vou ligar pra ele”.
“Não, pai. Não liga. Ele não quer saber do nosso filho!”
“Como que não quer saber? Na hora de fazer ele não foi homem?”, disse ele, com muita raiva.
“Não, pai. Não liga. Eu vou conversar com ele depois”
“Filha, nós não vamos te abandonar. Um filho é uma benção, mas na hora certa. Você acabou de entrar na faculdade... tinha um futuro inteiro pela frente”, disse a mãe
“Eu sei, mas eu não tenho o que fazer agora”
“Liga pra sua ginecologista que eu vou lá com você. Você precisa iniciar o pré-natal”, falou a mãe de Fernanda.
Ela estava desnorteada. Mal conseguia cuidar dela... como ia conseguir cuidar de um bebê? Conseguiram marcar uma consulta de emergência pro dia seguinte. Felipe insistia ligando para o celular de Fernanda, mas ela não queria falar com ele. Estava totalmente decepcionada.
“Nathy, ele me disse pra abortar”, falou ao telefone com sua melhor amiga.
“O quê? Ele é louco?”, disse assustada.
“Pois é. Agora eu não consigo falar mais nada. Preciso descansar que amanhã vou a ginecologista”.
E desligou o telefone. No dia seguinte bem cedo, sua mãe foi com ela até a ginecologista. O primeiro exame que ela passou foi um ultrassom... “Precisamos ver se está tudo bem”, disse a médica. “Desde já você terá que ter muitos cuidados. Vou te orientar. Sei que deve estar desesperada, mas fica calma, porque esse bebezinho que está aí dentro não tem culpa das nossas irresponsabilidades”. Quando a médica falou bebezinho, o coração de Fernanda pulou. Ali a ficha dela caiu. Saindo do consultório, já ligaram para marcar a ultrassom. Por conta de uma desistência, tinha horário para o dia seguinte. Chegando em casa, Fernanda resolveu ligar pra Felipe.
“O que você quer?”, disse ela.
“Fernanda, para de ser infantil..” e sem que ele pudesse terminar a frase, ela interrompeu: “Infantil? Analisa a situação e você vai ver quem é o infantil aqui”.
“Tá. Eu fui precipitado. Mas cara, me deu desespero vendo minha vida toda mudar num piscar de olhos”.
“Sua vida mudar? Querido, sua vida não vai mudar em nada. Sou eu quem vou carregar esse bebê por nove meses. Se você me ligou pra falar do mesmo assunto, eu vou desligar”.
“Não, espera”. Felipe estava confuso. “Você está mesmo disposta a ter esse filho?”...
Fernanda nem respondeu. Desligou o telefone na cara de Felipe. Que pergunta é essa? Foi dormir. Era o melhor que ela podia fazer.
Sua mãe, que tinha o telefone de Felipe, mandou por mensagem: “Felipe. É a mãe da Fernanda. Sei que você deve estar desnorteado. Você é um menino... ela uma menina... iam começar a viver agora... mas acredite, não há benção melhor do que um filho. Ela amanhã fará uma ultra às 9h, naquele laboratório aqui perto de casa, O lmagem Diagnóstico. Estamos com esperança de ouvir o coração do bebê. Vá, porque esse filho também é seu”. Felipe recebeu a mensagem e começou a chorar. Com certeza não eram esses planos que ele tinha, mas o que fazer agora? Já estava feito. Chegando ao laboratório, Fernanda estava sentida por Felipe não estar presente. Sua mãe não comentou nada com ela que havia mandado mensagem, pois não sabia se ele ia aparecer. Fernanda foi chamada para o exame e logo que começou, a médica já disse: “Olha aqui”. E ouviu uma batidinha na porta. Era uma enfermeira: “Doutora, acho que tem um papai atrasado aqui. É aqui a ultra da Fernanda, não é?”. Era Felipe... toda desajeitado e sem graça. A mãe de Fernanda sorriu e olhou pra ela, que estava com os olhos cheios de lágrimas. “Senta aí, papai”, disse a médica. “Olha aqui... o coraçãozinho do bebê de vocês”. As batidas eram tãoo rápidas... “É normal bater tão rápido assim?”, perguntou Fernanda emocionada. “Sim. Super normal. Está super saudável”. Felipe olhou pra Fernanda e ficou envergonhado de ter pensando na possibilidade de fazer um aborto. Naquele momento, tudo fez sentido. Aquele serzinho pequeno, com aquele coração batendo tão forte... um pedacinho dele e dela. Era impossível não se emocionar. Felipe levantou e foi abraçar Fernanda. Os dois caíram em prantos.
“Me perdoa. Eu amo você e estaremos juntos até o fim”.

Esta semana tem novidade Rafaela Caro e Mulher Moderna  Aguardem ;)
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